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"Do
Pulsar do Teu Sagrado Coração"
Desenhos
riscados em cadernos de criança, textura elevada das agendas para
adolescentes, homenagens talhadas em árvores por jovens enamorados na
primavera, chocolates e doces diversos para os mais variáveis paladares,
balões ornamentais para decoração de estabelecimentos comerciais e
tantas outras coisas assimilaram a forma do coração para designar, em
quase todas as ocasiões, os sentimentos mais nobres que alguém possa
adquirir ou expressar. Mas nada disso é capaz de sugerir ao homem ou à
mulher algo que seja capaz de satisfazer suas ansiedades.
Neste mês de junho, dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, queremos,
sobretudo, olhar para o pulsar cativante de Deus,onde somos acolhidos,
compreendidos, salvos e remidos. Seria muito enriquecedor, para a vida
espiritual do homem e da mulher, compreender que o movimento deste
Coração pode ser ouvido, percebido e imitado, como, possivelmente,
aconteceu na noite da instituição da Eucaristia, quando o Apóstolo São
João reclinou sua cabeça no peito de Jesus e ultrapassou deveras a
freqüência ritmada do que ouvia (cf. Jo. 13, 23).
A primeira e mais digna moção transcendente desse Coração é a
amabilidade, qualidade de quem ama em larga escala e com liberdade. De
fato, como que deixando ressoar o que sentira, São João exclama: "Ele
nos amou primeiro" (1ª Jo. 4, 19). Aceita-se, a partir disso, que o Coração
de Jesus é manancial de amor verdadeiro e seria impossível conceber uma
forma sincera de amar que não fosse inspirada por quem primeiro nos
amou. De tal modo, o homem é desafiado a sair do seu individualismo e é
convidado a ritmar seu coração de acordo com a cadência do amor
divino-humano, para que se verifique o novo estilo de viver apresentado
à comunidade dos Filipenses: "Tende vós mesmos os sentimentos de Cristo"
(Fl. 2, 5).
Ora, nisso consiste a vida em busca da perfeição e da santidade:
assemelhar-se cada vez mais à forma de ser e de viver do Filho de Deus e
esforçar-se por amar como Ele nos amou (Jo. 15, 12).
Do Coração de Cristo, também se pôde ouvir ritmos de generosidade. Ele
nada reteve do que recebeu e tudo entregou, com constante doação e
humildade. Ele indicou as garantias de assegurar o que se têm com
liberdade, transformou o nosso egoísmo em doação e nosso individualismo
em alteridade, tornou perfeita nossa oferta a Deus e nos enriqueceu com
sua própria vida.
Oh, como se ouve entre os cristãos: "Jesus, manso e humilde de Coração,
fazei o nosso coração semelhante ao vosso!". Novos ritmos de mansidão e
humildade vão ressoando em nossos corações, superando aquelas
inquietudes, inseguranças, insatisfações, soberbas, prepotências e
arrogância. Empenhemo-nos mais em aprender de Jesus que é "manso e
humilde de Coração" (Mt. 11, 29) e perguntemo-nos a nós mesmos: qual teria
sido a nossa atitude, se também nós, nos momentos difíceis de nossas
vidas, alcançássemos o manso Coração de Jesus através daquele olhar com
que Cristo transformou a revolta de Pedro em contrição? (cf. Lc.
22, 61-62). Muito mais afetuosos e afáveis seríamos, acaso deixássemos
modelar à semelhança do Coração humilde de Cristo.
Esvaziando-se de si mesmo (Fl. 2, 7), Jesus veio sobre a terra com o
objetivo de levar o homem ao conhecimento claro e esplendoroso a cerca
do seu amor desinteressado, para nos ensinar a receber esse amor e a
transmiti-lo, de modo que todas as pessoas fossem contagiadas.
Jesus nunca teve um Coração dividido, mas deixou-se abrir para que dele
brotasse a vida. Seu Coração é, portanto, aberto, traspassado, ou seja,
acolhedor. Incansavelmente se pode ouvir o eco desse Coração: "Vinde a
mim, todos vós que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei" (Mt.
11, 28). Devido às circunstâncias com que nos recebe, conhecendo e
aceitando-nos como somos, Jesus cerca-nos com toda sua ternura e sua
compaixão, por meio das quais também seremos acolhidos na eternidade
(cf. Sl. 25, 11; Mt. 25, 34).
Havemos de nos alegrar muito neste mês do Sagrado Coração de Jesus por
causa das inúmeras iniciativas de adoração e orações a Jesus
Eucarístico. Com ardor e cheio de fé, nosso povo já se reúne para
comemorar o Sagrado Coração de Jesus em ritmo de adoração. Homens,
mulheres, crianças, jovens e idosos com os olhos fixos no DIVINO e
HUMANO Coração, esperançosos que o Senhor os leve ao conhecimento do seu
bem-querer para todos.
As preocupações e as inquietudes nascem dos corações acelerados demais,
enquanto as amarguras e ressentimentos parecem angustiar os corações que
"pararam" no passado ou se perderam no tempo. No entanto, o coração com
freqüência cardíaca normal é cheio de paz, alegria, tranqüilo, sereno,
suave...
Do Coração Sagrado de Cristo recebemos a amabilidade, a generosidade, a
mansidão, a ternura e o sossego para, enfim, alcançarmos o cumprimento
dos desígnios divinos. Lembremo-nos, portanto, da promessa do Senhor:
"Dar-vos-ei um novo coração e porei em vós um Espírito Novo; tirarei de
vós o coração de pedra e vos darei um novo coração de carne..." (Ez
36,26).
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
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